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Publicado em Notícias
Postado por  Sede Geral - Ana 29 Outubro 2018
Nas Fronteiras: Esvaziar e confiar em Deus!

No estudo bíblico assessorado por Maria Soave, ela dizia que lemos e interpretamos a bíblia a partir da realidade onde pisam os nossos pés. Isto foi em 2013 quando me preparava para vir para o Amazonas, e de modo especial para São Gabriel da Cachoeira-AM. Cinco anos depois, vejo que esta frase se fez verdade em minha vida e em minha carne.

Viver em São Gabriel, tri-fronteira: Brasil- Colômbia-Venezuela, realidade marcada pela diversidade de 23 povos e 18 línguas, me possibilitou uma nova cosmovisão: celebrar a simplicidade da vida; festejar o nascimento e crescimento de uma semente, saborear com prazer, degustar os sabores, apreciar novos sabores; viver com bem menos e não sofrer com as “faltas”, pois até se chega a compreender que não havia necessidade do  que era considerado essencial; viver a reciprocidade, acolhida, generosidade e hospitalidade no cotidiano; observar com espanto a grandeza do todo da floresta, das águas e a nosso pequenez e fragilidade humana e missionária, pois somos poucos e as distâncias e os desafios são grandes.

Viver nas Fronteiras: geográfica, cultural, política, social nos proporciona um desnudar, desfazer, esvaziar, tornar-se aprendiz. E para mim foi e é um processo de absorção de impactos, reestruturação do meu ser, renovação e integração. Este movimento fragiliza, pois não seria ilusão viver com os pobres e querer ser forte e invencível? E também me fortalece de um jeito novo, que talvez ainda não tenha palavras claras, mas que sinto e pressinto em meu ser.

 Ao assumir o trabalho como psicóloga educacional, através do concurso da SEDUC, me foi possibilitado maior proximidade das crianças e juventudes, bem como dos servidores e profissionais da educação e causa-me surpresa a acolhida e procura do serviço de psicologia. São dezesseis escolas, seis na cidade e dez no interior, num total de oito mil alunos. Para se chegar ao interior demanda tempo e investimento econômico que nem sempre é possível.

Estar com as crianças, adolescentes e jovens é para nós, irmãs catequistas franciscanas, uma bênção, um dom e uma possibilidade de colaborar na construção da vida. Novos caminhos se abrem e nos possibilitam novas inserções e neste sentido rezo cotidianamente meu Creio:

Eu creio Na Presença amorosa da Divina Ruah que nos acompanha todos os dias, nos alimenta de sonhos e de esperanças, nos fazendo permanecer na luta e defesa da vida;

 Eu creio na vida compartilhada, celebrada e conquistada em ajuri (mutirão);

 Eu creio que a vida comunitária é dom precioso e que nela nos aprimoramos como ser humano, descobrindo nossos dons e fragilidades, em que podemos ser apoio e suporte para cada uma, cada um;

Eu creio na vida cristã e em uma igreja pobre, à serviço do povo, sem ostentação e poder, mas caminhante e pobre com os pobres;

Eu creio na Vida Religiosa Consagrada que encontra sentido em Seguir Jesus no serviço cotidiano aos mais pobres e sofredores como sinal e presença amorosa de Deus na vida dos pobres, e que, por eles rompe estruturas, esquemas e se faz pobre e caminhante, sem medo do presente e do futuro, pois sua força vem de Deus;

 Eu creio que o nosso testemunho de mulheres felizes é um sinal profético e possibilidade para as e os jovens;

Creio que ao ser tocada e transformada pelo encontro profundo com a dor dos sofridos e vítimas do nosso tempo não há como volta atrás e nem fazer negociação de direitos, dá-se a vida pela vida. E por isso, somos mulheres de contradição, profetizas incansáveis, geradoras de vida e de esperança;

Creio no Deus da beleza, da dança, da arte tecida em fios, da diversidade de cores, línguas e saberes que nos protege nos benzimentos, rituais e bênçãos;

Eu Creio no Deus amoroso:

- que chora comigo no choro das crianças, das meninas vítimas de violência, desnudadas de sua dignidade e dos seus direitos, às vezes este choro se torna grito, calado ou sufocado nas delegacias e nos processos intermináveis;

- que acolhe as pessoas que gritam silenciosamente sua dor e inconformismo ao cortar-se a si mesmo, (automutilação) pois se perdeu a rota e a força, e a dor encontra eco em redes virtuais banhadas de escuridão, depressão e medo;

- que me ajuda a escutar as meninas e meninos que ainda pequenos se aventuraram em relações sexuais em busca de abraço e de afeto e que sofrem abandono e preconceitos;

-  que me ajuda a compreender e acolher as crianças e jovens caídos nas praças, bêbados de álcool, com ressaca de si mesmo, ou nos que traficam e com o ganho compram lanche na escola, ajudam a vó, e que aos poucos se tornam usuários e me olham com olhos turvos e invisíveis, mas que mesmo assim me abraçam e me dizem que querem mudar;

Eu Creio que Deus se aventura comigo nos becos e nas ruas nas visitas familiares, na acolhida de cada pessoa, na surpresa cotidiana.

Agradeço a energia para recomeçar a cada manhã, o não perder a esperança, o abraço e o sorriso de cada um que me faz ser irmã,

É isto irmãs, eu, ser humano-mulher-agricultora-migrante-religiosa-catequista-franciscana-missionária-psicológa, ser em construção e aprendiz da vida. Me sinto agraciada por viver o que vivo, pois Deus me abre possibilidade de recriar e ser uma mulher nova.

Informações adicionais

  • Fonte da Notícia: Irmã Maria Aparecida Marques Fernandes - Cidinha

Comentários  

#3 Cidinha 17-11-2018 20:16
Queridas Neusa e Eunice, agradeço o carinho e apoio. Sigamos confiando em Deus e, na medida do nosso coração e de nossas forças vamos entregando a vida. Abraços
#2 Neusa 31-10-2018 19:15
Cidinha, minha querida, Obrigada pela linda partilha da vida e missão nessas terras tão sagradas. Que o Deus da Vida sempre caminhe contigo. Grande abraço
#1 Eunice Berri 31-10-2018 03:35
Querida Cidinha, muitos beijos no coração por seu testemunho e sua vida partilhada nesse texto tão bonito, profundo. Você se faz Eucaristia alimentando-nos assim! Rica experiência! Belíssima missão!Um abraço bem gostoso a você, Lenita (que nunca mais vi (que triste...)e a todas da irmandade!

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